MotoGP: adeus, meninas?!…

Nalgumas modalidades do desporto motorizado estão a desaparecer as meninas do guarda-sol. Poderá essa tendência chegar ao Mundial de Velocidade? Se chegar, é positivo ou negativo?

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Grid Girls

O que é que Lauren Vickers, Pippa Morson, Alessandra Rossi, Grace Barroso ou Manuela Raffaetà, entre tantas outras, têm em comum (para além de serem belíssimas…)?

São mulheres/namoradas de pilotos: Randy de Puniet, Eugene Laverty, Andrea Dovizioso, Álvaro Bautista e Marco Melandri, respectivamente. Mas não só. São – ou foram – modelos e ‘umbrella girls’, as meninas que seguram no guarda-sol para proteger o piloto na grelha de partida.

Marco Melandri e Manuela Raffaetà

E porque vêm agora ao caso? Depois da resistência automóvel há dois anos, é agora a vez da F1 banir as ‘umbrella girls’ a partir desta temporada, que começará em Março.

Uma vez que o Mundial de Velocidade olha muito por cima da cerca para a vizinha F1 em busca de ideias, será que vai ser contagiado? Poderão as meninas do guarda-sol desaparecer das grelhas de MotoGP?

Num mundo de homens

O assunto não é pacífico. Primeiro porque as ‘brolly dollies’ são uma verdadeira instituição nos desportos motorizados, populando as grelhas de partida das corridas de motos há décadas, tendo-se tornado numa verdadeira tradição; segundo, porque estamos a falar de um mundo que (ainda) é maioritariamente masculino, e exibir mulheres esbeltas e meio despidas para promover uma marca pode parecer uma forma de exploração e discriminação.

Marc Marquez na grelha de partida

Os tempos mudam. É o progresso, dizem eles. Acabar com esta tradição será uma afronta feminista ou são os ‘machistas’ que querem ficar agarrados ao passado?

Porque é que existem meninas, quase sempre com pouca roupa e justa, a segurar em guarda-sóis na grelha de partida? Começaram por ser as mulheres e namoradas – e até mães – dos pilotos que iam dar uma ajuda e servir de ’tranquilizante’ nos tensos momentos antes da partida de uma corrida.

Alguém percebeu que havia ali um potencial de marketing: num desporto de homens, ter umas mulheres atraentes, com roupa sexy a dar nas vistas era um excelente meio de promoção para as marcas.

Agora os pilotos chegam às corridas mundiais ainda na adolescência e mal têm pelos púbicos, quanto mais namoradas ou mulheres. Mas acabam por encontrar ali as futuras. Fecha-se o circulo.

Muitos vêem a umbrella girls como meros cartazes ambulantes.

Muitas das modelos que vemos ao domingo na grelha de partida são muito mais do que isso, e têm outras funções ao longo do fim-de-semana: não só vestem as cores da empresa que as contrata, como dão a cara por essa mesma empresa, recebendo convidados e servindo de cicerone, dando explicações sobre a empresa ou sobre o que se está a passar no circuito.

Banir quem?

Vamos imaginar: proíbem-se as umbrella girls (mas… e boys são permitidos?). Então… isso quer dizer que a ‘Manuela’ não pode estar ao lado do ‘Marco’ na grelha e segurar-lhe no guarda-sol e no cantil da água? Pode, porque é sua mulher/namorada/mãe. Mas se não for, não pode, é isso?

Ou sou de vistas curtas, ou não estou a ver a diferença, porque tirando os fãs mais hardcore, ninguém sabe quem é a ‘Manuela’, se é mãe, irmã, namorada, ou modelo que está a ser paga para estar ali. Ou simplesmente vão banir todas as mulheres?

Até porque não me parece que as senhoras que desempenham esta profissão – porque há toda uma indústria deste sector – estejam lá obrigadas, não sejam pagas ou achem que estão a ser exploradas e vistas como objectos. Para muitas esta é a sua profissão. Que elas escolheram. Já lhes perguntaram o que elas pensam sobre acabar com uma área do seu mercado de trabalho?

Se houver uma sensibilização junto das equipas/promotoras/agências em busca de maior decoro – e hoje em dia as umbrellas girls já não estão tão explicitamente vestidas (despidas?!) como há uns anos – parece-me um primeiro passo mais acertado. Até eu ficava encavacado quando dava de caras com as umbrella girls da ÖKM Aprilia/SK Vöst que acompanhavam o piloto austríaco Andy Preining no Mundial de Velocidade no início dos anos ’90. E quando aparecia a própria Dolly Buster (conhecida no paddock como Bicilíndrica…), isso sim, já passava os limites de qualquer bom senso.

Porém, isto não é um problema da quantidade de roupa, ou de quanta pele esta revela. É uma questão de género. É estar a ‘usar’ as mulheres, à vista de alguns.

Grid Girls

Ter alguém vestido com as cores de um patrocinador com uma guarda-sol na mão, ou a distribuir posters e autocolantes, faz parte do espectáculo. Ser homem ou mulher se calhar é irrelevante para a maioria dos fãs nos dias que correm. Tendo em conta que é um desporto (ainda) dominado pela presença masculina, percebe-se o foco nas modelos femininas; se o objectivo é atrair mais mulheres para o desporto motorizado, parece-me haver muitas outras coisas a fazer antes de acabar com as que lá estão. Mas lá está, vivemos na era do politicamente correcto, que muitas vezes leva a descobrir problemas aonde eles não existem.

É que a haver um ‘problema’ com as umbrella girls, o problema é muito mais vasto, porque o papel que estas desempenham no paddock e na grelha de partida não é exclusivo das corridas. Por exemplo, nos salões internacionais os stands das marcas estão cheios de modelos que sorriem e posam com as motos para os fotógrafos – mas aqui já começam a aparecer muito esporadicamente homens a desempenhar também esse papel, mas em muito menor número.

A Ana Carrasco em 2014 levou um umbrella boy, em tronco nu e com ‘tatuagens’ da RW, para a grelha de partida do GP da Holanda. E não foi a única, em competições nacionais um pouco por todo o mundo, outras mulheres levaram homens para a grelha para segurar no guarda-sol.

Podia ser a solução, a diversificação em vez da proibição? Mas provavelmente teríamos que ter mais mulheres a correr… here we go…

Ana Carrasco no GP da Holanda de 2014

Confesso que ainda não sei bem se contra ou a favor da proibição. Para já parece-me haver quem queira ser mais papista que o papa. Não sei se alguém alguma vez deixou de ver corridas por, antes da partida, estarem lá umas senhoras de sombrinha. À primeira vista parece-me ser a procura de uma solução para um problema que não existe.

Correndo o risco de soar a machista: não vejo mal nas umbrellas girls tal como elas são hoje. Fazem parte do desporto, dão-lhe colorido e não vejo um lado maldoso ou discriminatório no assunto.

As mulheres – e os homens, já agora – não devem ser tratadas como objectos. Isso é ponto assente, mas não me parece ser este o caso nas grelhas de partida. De qualquer modo, as modelos deveriam ter uma palavra a dizer. Na verdade, a palavra mais importante, até.

 

Este é um tema que dava pano para mangas. E vocês o que acham? Concordam com o fim das ‘meninas do guarda-sol’? Seria interessante ouvir especialmente a opinião das senhoras: a presença de modelos femininos nas corridas de motos influencia de algum modo a vossa abordagem a este desporto? Afasta-vos, atrai-vos, ou não aquece nem arrefece?