Guerra de impostos EUA vs. UE pode afectar indústria das duas rodas

Possível escalada de taxas comerciais entre Estados Unidos e União Europeia podem afectar a indústria das duas rodas dos dois lados do Atlântico.

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Harley-Davidson EICMA 2017

Donald Trump propôs taxar as importações de aço e alumínio – em 25% e 10%, respectivamente – para, alegadamente, proteger a indústria americana. Esta intenção manifestada pelo Presidente dos Estados Unidos e a resposta do Presidente da Comissão Europeia podem ter repercussões no sector das duas rodas, dos dois lados do Atlântico. 

O que é que isto tem a ver com motos? A resposta de Jean-Claude Juncker dá uma pista: «Então vamos também impôr tarifas. Este é, basicamente um processo estúpido, o facto de termos que fazer isto. Mas temos que o fazer. Agora vamos impôr taxas às motos Harley-Davidson, às calças de ganga Levi’s, ao bourbon. Também podemos ser estúpidos. Também temos que ser assim estúpidos», foi a resposta do Presidente da Comissão Europeia ao POTUS.

Isto fez disparar o alarme na ACEM (a associação dos construtores europeus de motos) que prevê um efeito negativo desta guerra de taxas no sector motociclístico.

Diz Stefan Pierer, o CEO da KTM que é actualmente o Presidente da ACEM: «As empresas de motos são jogadores globais empenhados em acordos comerciais livres e equilibrados. Os EUA e a UE deviam trabalhar em conjunto para facilitar o comércio internacional e a convergência regulatória, e não restringi-los ao adoptar medidas unilaterais de motivação política».

ACEM President and KTM AG CEO - Stefan Pierer
Stefan Pierer, Presidente da ACEM (e CEO da KTM)

Indústria europeia pode sofrer

Se a picardia de taxas for avante, não será só a mencionada Harley-Davidson (e a Indian) a sofrer prováveis consequências. A indústria motociclística na Europa, que emprega 156 000 trabalhadores, também pode ser abalada. Segundo dados do Eurostat, em 2016 a UE exportou para os Estados Unidos motos no valor de 483,1 milhões de euros. Isto significa que o mercado americano representa 29,1% das exportações europeias de motos. Mais: empresas europeias de peças e componentes exportaram para o EUA no mesmo ano produtos no valor de 139,6 milhões de euros, que representam 30,8% do total das suas exportações. Se a guerra política fizer aumentar substancialmente os preços, esses números podem cair.

Explica Antonio Perlot, Secretário Geral da ACEM: «A UE é um mercado-chave para as marcas americanas. Mas os EUA são também o parceiro comercial n.º 1 europeu no sector motociclístico. Confiamos que as autoridades americanas e europeias evitem esta escalada no comércio global, que poderia ser extremamente prejudicial à indústria motociclística nos dois lados do Atlântico».

ACEM Secretary General - Antonio Perlot
Antonio Perlot, Secretário Geral da ACEM

‘Guerra’ antiga

Entretanto a ACEM já comunicou oficialmente por escrito as suas preocupações à Comissária Europeia do Comércio, Cecilia Malmström.

Este esgrimir de ameaças de agravamento de taxas entre os EUA e a UE não é de agora. No início do ano passado, pressionado pelos industriais da carne americanos, o Office of United States Trade Representative considerou impôr uma taxa de 100% à importação de motos europeias. Era uma retaliação pelo facto de a UE manter a proibição à importação de carne de vaca americana por esta não cumprir as regras europeias, apesar de uma tentativa de acordo em 2009. Mas já em 1999 as motos europeias constaram de uma lista ‘de agravamento’.

Felizmente para os motociclistas americanos e para as empresas e trabalhadores europeus, essas taxas nunca foram avante. Veremos desta vez.