Dakar, Africa Race e Franco Picco

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Este é um ano especial para o Dakar. A grande prova do todo-o-terreno celebra a sua 40.ª edição, e nestes 40 anos muita coisa mudou.

Por exemplo, esta é a 10.ª edição realizada na América do Sul, arrancando à distância de um oceano e um continente da cidade que lhe deu nome.

Por outro lado, a cidade que lhe deu nome recebe outro rali, o Africa Eco Race, que também regista um marco na sua história: é a 10.ª edição desta prova africana, registando o maior número de participantes de sempre.

Para muitos a Africa Eco Race é que é o verdadeiro Dakar não apenas porque termina na cidade senegalesa, mas porque mantém uma aura de aventura, com participantes amadores, de mochila às costas e sem a participação oficial das marcas, evocando as primeiras edições do Paris-Dakar.

Porque foi assim que o Paris-Dakar começou, no final dos anos ’70 na era pré-digital. Uma bússola, um roadbook, água e uma sacoche de ferramentas era a bagagem dos motociclistas aventureiros. Não havia sequer motos fabricadas para este tipo de utilização. O Dakar acabou por estar na origem das trail. Os ‘motards’ eram os ‘meninos queridos’ de Thierry Sabine, o pai do Dakar.

A prova cresceu rapidamente em popularidade e começou a ser atractiva para as marcas, que começaram a participar com as suas equipas oficiais.

Os amadores de mochila continuaram a participar, mas em segundo plano, apesar de a dada altura ter sido criada uma classe para eles, a Maratona. Mas a atenção já estava toda nos pilotos oficiais, e hoje em dia o Dakar é só a prova de todo-o-terreno mais importante do ano e um dos eventos mais mediáticos do desporto motorizado.

A história do Dakar levou mais uma reviravolta em 2008,. O Dakar ia sair pela terceira vez de Lisboa, mas na véspera da partida a prova foi pura e simplesmente cancelada. Apesar de nos dias anteriores terem sido feitas alterações ao percurso original para evitar zonas conturbadas no Mali, as ameaças vindas da Mauritânia, da autoria da Al-Qaeda, levaram o governo francês a pressionar a ASO (Amaury Sport Organisation), organização do evento liderada por Étienne Lavigne, a cancelar a prova, por não poderem ser garantidas as necessárias condições de segurança da caravana.

Depois de improvisada uma prova no centro da Europa como ‘substituição’, a ASO partiu à descoberta de novo território, e a partir de de 2009 o Dakar passou a realizar-se na América do Sul.

Nesse mesmo ano nascia a Africa Eco Race, que se propunha não só a percorrer os países anteriormente percorridos pelo Dakar, mas comprometia-se também a manter o ‘espírito Dakar’, apelando aos amadores e apostando numa filosofia ecológica e de entre-ajuda e apoio aos povos visitados.

Se o Dakar saiu de África por causa das ameaças terroristas, como é que a Africa Eco Race passa pelos mesmos países sem problemas?

Porque na Africa Eco Race não tem a dimensão, visibilidade e impacto mediático do Dakar; mas, as ameaças continuam lá: ainda há dias a CEAS-Sahara (Coordinadora Estatal de Asociaciones Solidarias con el Sáhara), uma ONG espanhola, chamou a atenção para o descontentamento da Frente Polisário, porque esta considera a decisão dos organizadores atravessarem o Sahara Ocidental sem ter consultado o povo saarauí «um insulto à vontade dos saarauís, um desafio às Nações Unidas, um apoio ao colonialismo marroquino e uma violação do cessar fogo, em vigor desde Setembro de 1991».

Por outro lado, na América do Sul o Dakar também tem tido alguma contestação, quer por parte de algumas organizações ambientalistas, quer dos próprios habitantes de algumas cidades, que não querem a confusão e risco gerado pela caravana na travessia das suas cidades e estradas.

As duas provas, apesar de terem partido – em eras diferentes – de uma filosofia semelhante, são hoje em dia bem distintas, e não apenas por se realizaram em continentes separados por um oceano. Uma é mais acessível aos pilotos amadores, a outra é um escaparate para os construtores mostrarem o seu poderio; uma tenta manter o espírito de aventura, a outra é a corrida mais dura do mundo – mesmo tendo especiais mais curtas e ligações a perder de vista, especialmente este ano, enquanto as especiais na Africa Eco race são (quase) sempre mais longas que as ligações, sendo muitas vezes a quase totalidade da etapa.

Há pilotos que já correram em ambas, como é o caso de Pal Anders Ullevalseter, ou Franco Picco. E foi este último que me levou a pensar no passado e futuro destas provas. Ver o seu nome na classificação da Africa Ecco Race transportou-me no tempo. Franco Picco? É o Franco Picco ou algum jovem com o mesmo nome? O Franco Picco já deve ter uns 70 anos! Não, não tem, tem ‘apenas’ 62, e sim é mesmo o Franco Picco.

Fez-me viajar no tempo porque Franco Picco foi o último poster a ser arrancado do meu quarto de adolescente, que esteve literalmente forrado de posters de motos e bandas rock. Depois de um ultimato, tive que os arrancar todos, mas deixei o de Franco Picco, atrás da porta.

Uma foto fantástica, um panning da Yamaha Ténéré 600 a fundo num imenso mar de areia, o Picco encolhido tanto quanto podia, com a sacoche à volta da cintura. Uma foto muito semelhante a esta que encontrei no seu site. Era o Dakar numa imagem.

Franco Picco com a Yamaha Ténéré

O piloto italiano, hoje com 64 anos, foi um dos pioneiros e, apesar de nunca ter vencido, foi também um dos heróis do Dakar. Do Dakar e de outros grandes raides africanos. Subiu três vezes ao pódio no Dakar, venceu um par de vezes o Rali dos Faraós e o Rali das Piramides.

Participou no Dakar entre 1985 e 1990, fez mais tarde dois Dakar de carro ainda em África, mas em 2010 voltou para fazer o Dakar de moto, e praticamente não parou desde então. Este ano não foi ao Dakar, mas está na Africa Eco Race.

Franco Picco este ano na Africa Eco Race

Poderá ele ser ser o exemplo que mostra a diferença entre ambas as provas: competição e glória – reservada apenas a alguns – numa, aventura mais acessível (e aprendizagem, até como ‘estágio’ para o Dakar) na outra? Sendo a Africa Eco Race mais ou menos aquilo que foi o Dakar no seu início – e sendo dirigida por uma antiga estrela do Dakar, Jean-Louis Schlesser -, poderá evoluir também nessa direcção? As duas provas complementam-se, ou poderão um dia vir a ser concorrentes? Transformar-se-á a Africa Eco race num reduto dos pilotos que não conseguem meios para ir ao Dakar, ou continuará a crescer pelos seus próprios méritos?

Ambas certamente manterão muito em comum: o apelo da aventura e da superação pessoal, independentemente do nível de pilotagem ou do orçamento da equipa.

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